Moscou. E lá se foram dois anos…

O frio e o idioma já não me assustam tanto. Será que estou virando russo? Fico feliz quando os termômetros marcam -10ºC no inverno e reclamo dos insuportáveis +20ºC no verão. Aprendi a empurrar e a ser empurrado no metrô. E também aprendi a entrar no vagão certo pra já sair perto da escada-rolante e não perder preciosos minutos dentro de uma tumultuada estação. Assim fazem os sempre apressados moscovitas.

A vodka na terça-feira à noite não me choca mais. E entendo por que tanta gente gosta(va) do Putin. Vi Lênin cara a cara. E passei a entender por que tanta gente gosta de Stalin. Notei que pop russo pode ser divertido. Principalmente depois de umas doses daquela vodka da terça-feira. Moscou acredita em lágrimas. Principalmente… às terças-feiras.

Confirmei alguns estereótipos e ri de outros. Ainda não vi nenhum urso na Praça Vermelha. Mas já vi muito oligarca. Vi petróleo. E vi gente pagar fortunas em spas que tratam os pacientes com petróleo. Vi dançarem as bailarinas do Bolshoi. E me acostumei com as limusines brancas, rosas, douradas ou vermelhas. Provei que brasileiro também sabe patinar no gelo. E descobri que os russos são menos frios do que imaginamos. E acreditem: os russos podem ser mais dramalhões e ciumentos do que nós, latinos.

Conversar sobre o Tajiquistão passou a ser tão comum quanto falar sobre a Argentina ou Portugal. Aprendi que Sibéria não é sinônimo de norte da Rússia. E que moro mais perto de Pequim do que de Vladivostok, lá no leste do país.

Entendi que presentinhos pro policial ou pro professor não são considerados propina. São somente agradinhos.  Que espião não existe somente em filme e a princesa Anastasia não é uma história infantil. Eles podem ser seus vizinhos ou amantes.

E a política… ai, a política… Se no Brasil palhaços e jogadores de futebol viram deputados, aqui o circo faz parte do dia-a-dia. Já imaginou um grupo pop brasileiro cantando algo do tipo “Alguém como a Dilminha é o que eu quero, alguém como a Dilminha é o meu sonho”? Pois aqui grupo pop faz música pro presidente (ou primeiro-ministro). E a música não somente toca nas rádios e nas boates como cai no gosto popular. Imaginou um calendário de saradões em fotos sensuais dizendo em cada mês o porquê do apoio à Dilma? Aqui, saradonas posam quase peladas em homenagem ao quase presidente. Mas eu entendo, juro que entendo.

Apesar de já ter naturalizado muitas das coisas que me causavam estranhamento aqui nesta distante e gigante Rússia, continuo tentando lançar o meu olhar estrangeiro. Agora com menos preconceitos, mas ainda com muita curiosidade.

E quando eu acho que já vivi muito tempo aqui, saio de casa, pego o metrô lotado, olho a Praça Vermelha e confirmo o que todos me diziam desde o princípio: “Sim, a Rússia é diferente”.

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14 respostas para Moscou. E lá se foram dois anos…

  1. Danilo Prestes disse:

    hehehehe.. muito bom!! e olha q so sao 2 anos… so quero ver quando passar mais alguns!! muito bom texto eu colocaria mais um monte de observacoes por ai com meus 6 anos de Russia hehehe… vou continuar entrando aqui e vendo que tu ta escrevendo rapaz!! abraco te mais… vou recomendar!!

  2. Ieda Souza disse:

    Gostei .. 02 anos… o 1º tudo é novo, o 2º adaptação, o 3º ah o 3º ano só quando passar podemos dizer como é viver fora com diferentes culturas, clero e seus paradigmas…

  3. Cris disse:

    Adorei! Deu pra ver um pouquinho da Rússia com os seus olhos.

  4. maísa disse:

    apaixonante! Sua linguagem está mais poética. É o efeito da idade ou apenas a emoção de retomar o blog? bjs amore boa sorte por aí, te admiro!

  5. Amine Kadidijah disse:

    Conheci Moscou sem nunca ter ido até ela…Muito bom.

  6. Gu Du disse:

    Mandou bem! Vou recomendar.

  7. Eliana de Oliveira disse:

    Sandro, tudo que você escreve, o seu trabalho, o seu jeito de ser me emociona muito. Te vi na Globo News e agora te descobri aqui, estarei sempre te visitando. Bjs e seja feliz sempreeeeeeee

  8. bernardo disse:

    Muito bom! Quero ir aí no verão!!!

  9. Marina Maria disse:

    Não resisti e quis ler agora! Uau, 2 anos já?!! Mto tempo e tanta coisa ainda por vir, meu amigo.
    O estanhamento vai diminuindo, alguns hábitos vão sendo incorporados, e algo de pertencimento surge sem se dar conta… sobretudo qdo não consegue imaginar como viver nos 50 graus de Big Field e adjacências. Seja em Moscou, em Madri, em Lisboa ou em Londres, ou no Rio (who knows?), por onde for, é bom dimensionar essa diversidade pelo seu olhar!! Bjs e vida longa ao blog!

  10. Rogério Diniz Junqueira disse:

    Texto direto e charmoso.
    O blog promete.
    Mande brasa!

  11. Ana Leticia disse:

    Parabéns, Sandro!!! Teu blog vai me servir de fonte, beleza?? rsrs

  12. Mateus Nagime disse:

    Ahh, Sandro, amei o post, assim como todos falaram me deu muita vontade de finalmente ir a Moscou, passar uns dias aí! Continue com o embalo que o blog é fantástico!!!

  13. Caio disse:

    Sandro! Adorei o post. Ao ler, fui concordando com a cabeca em varios momentos pq eu penso da mesma forma. Acho que viemos na mesma epoca pra russia, antes de vir, encontrei teu blog por acaso e vi que vc era um jornalista recem chegado aqui e dai vim. hahaha Desde entao, nao parei de ler, ate vc parar de escreveeeeeer!!! E hoje, descubro que vc voltou a escrever, e mais, ainda esta na russia! Que bom! Parabens e continue escrevendo!!

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