O meu voto nas presidenciais da Rússia

Domingo à noite. Boate descolada em Moscou. Música alta.

“Oi, tudo bem? Você é de onde?”

“Sou brasileiro”

“Ah, legal. Estuda ou trabalha aqui na Rússia?”

“Trabalho. Sou jornalista”.

“Jornalista? E o que está achando da situação política no nosso país?”

(silêncio e suspiro de alguém que passou a semana entre putins e ursos e que queria o domingo à noite pra falar sobre a música preferida da diva falecida)

Depois de dois anos vivendo em Moscou, pela primeira vez sou perguntado pelos russos o que penso sobre a política do país e os rumos da Mãe-Pátria. E é assim todos os dias – o vizinho, o professor, o amigo, o amigo do amigo. Parece que a apática década inaugurada por Vladimir Putin em 2000 criou uma geração que estava simplesmente esperando um momento pra ser ouvida, para “tuitar” e “postar” o que pensa. E quando conhecem um estrangeiro, a insistente pergunta vem sem rodeios:

“Em quem você votaria se fosse russo?”

(apelo para um outro suspiro, mais demorado)

Esta pergunta vinha me torturando antes das eleições legislativas do dia 04 de dezembro e quando escolhi o meu partido (e até comecei a fazer uma discreta campanha), achei que já não voltaria ao campo das dúvidas. Doce engano. Para complicar a minha vida, a candidatura do “meu partido” não foi aceita para as presidenciais do dia 04 de março.

Grigory  Yavlinski, líder do Partido Iábloko, teve sua candidatura impugnada porque, segundo o Comitê Eleitoral, 25% das assinaturas recolhidas pelo partido apresentaram algum tipo de irregularidade. O Comitê exige dois milhões de assinaturas para aprovar uma candidatura.

Cenário atual e expectativas

Além de Putin, são quatro as alternativas: Guennadi Ziuganov, pelo Partido Comunista; Vladimir Jirinovsky, pelo Partido Liberal-Democrata da Rússia (direita nacionalista); Mikhail Prokhorov (liberal), como candidato independente e Sergey Mironov, pelo Rússia Justa (centro-esquerda fiel ao Kremlin). Na foto abaixo, os candidatos aparecem na ordem mencionada anteriormente, com Vladimir Putin no meio.

O instituto estatal VTsIOM divulgou há pouco mais de uma semana que Vladimir Putin conta com 52% de intenções de voto, seguido de longe pelo comunista Ziuganov e o nacionalista Jirinovsky, cada um amargando 8% de intenções. Sergei Mironov e Mikhail Prokhorov apresentam 4% cada. Em comparação com a pesquisa divulgada na semana anterior, Putin subiu três pontos percentuais, enquanto Ziuganov perdeu os mesmos três pontos. Nas eleições de dezembro para a Câmara dos Deputados, o Partido Comunista obteve 19,16% dos votos.

A queda vertiginosa do apoio ao Partido Comunista é compreensível. O voto em dezembro a favor de Ziuganov foi um voto contra Putin e seu partido, Rússia Unida. Os eleitores viram no candidato comunista a única oposição real e consistente ao governo de Putin, mas agora veêm-se entre a faca e a espada, entre a falta de opção e a opção ruim.

Quando perguntados sobre o que esperam do novo presidente, 57% afirmam que desejam que a Rússia recupere o seu status de potência e de país influente. E este é provavelmente o ponto mais elogiado do governo Putin, inclusive pela oposição. O atual primeiro-ministro contará com esta vantagem na corrida eleitoral. A política externa russa na era Putin buscou recuperar o papel de líder regional do país, além de ter colocado a Rússia outra vez no mapa da política mundial. Apenas 34% dizem que o presidente “deve se preocupar mais com temas sociais que protejam o cidadão”.

O candidato Mikhail Prokhorov, em entrevista à revista alemã Der Spiegel na última semana, disse que ele defende uma Rússia com Putin, mas também uma Rússia com Boris Akunin (famoso escritor) e Aleksey Navalny (blogueiro conhecido pela luta anti-corrupção), ambos importantes líderes da oposição. Prokhorov, que já havia dito que “a Rússia não precisa de uma revolução, mas de uma evolução”, afirmou desta vez que se os partidos de oposição não chegarem a um consenso, o país pode enfrentar uma guerra civil.

O medo de uma revolução é um temor presente no discurso de muitos russos. Segundo eles, a estabilidade conseguida nos últimos dez anos, por mais imperfeita que seja, é melhor do que o caos social da década de 90. “Antes de Putin, o Estado não tinha controle nenhum. As máfias faziam o que queriam, dormíamos e acordávamos com medo. Agora pelo menos temos tranquilidade. Sem Putin, o que vai acontecer? Precisamos de uma pessoa que assuma a responsabilidade e hoje não temos ninguém na Rússia capaz de fazer isso melhor do que Putin”, explica Roman, 26 anos.

Segundo pesquisas, 43% dos russos apóiam as manifestações, mas 78% afirmam que não participariam dos protestos caso estes sigam por alguns meses depois das presidenciais de março. “Os manifestantes de oposição estão cedendo à influênciaamericana.Comosempre, os Estados Unidos querendo dizer o que devemos fazer”, conclui o jovem.

Num artigo publicado no jornal Novaya Gazeta, o ex-presidente, Mikhail Gorbachev, que é um dos donos do jornal, sugeriu que fosse feito um referendo sobre uma possível reforma constitucional que conferisse menos poder ao presidente. Aleksey Makarkin, analista do Centro de Tecnologias Políticas, afirmou à agência Interfax que “apesar de ser uma idéia legítima, um referendo desestabilizaria a política russa”.

Oposição fragmentada

A oposição russa continua fragmentada entre nacionalistas, liberais e comunistas. Durante dois meses, os três segmentos protestaram juntos contra as fraudes eleitorais. No entanto, com as eleições presidenciais a apenas um mês, os diferentes grupos da sociedade vão pouco a pouco buscando uma coerência ideológica que parece cada vez mais fictícia. Toda a oposição concorda com o slogan “Nenhum voto a Putin”. Mas e no caso de um segundo-turno? O único cenário possível ainda parece ser Putin contra o comunista Ziuganov. Os russos conseguirão votar no Partido Comunista depois de 20 anos do fim da União Soviética?

Esta fragmentação da oposição favorece uma vitória de Vladimir Putin já no primeiro-turno e para o eleitor russo, parece que as manifestações destes meses já são um castigo à aparente onipotência do atual primeiro-ministro. A Rússia vai às urnas no primeiro domingo da primavera (para os russos, a primavera começa no dia 1º de março).

No entanto, na “primavera russa”, a derrota política do partido governista é improvável. Segundo a maioria dos especialistas, a perda da maioria constitucional na Câmara dos Deputados nas eleições de dezembro (o partido Rússia Unida conseguiu apenas 49,30% dos votos) e o intenso ativismo político de uma população que parecia satisfeita com toda e qualquer decisão do Kremlin, já são uma grande revolução num país marcado por uma década de apatia política.

Durante todo o mês de fevereiro, 25 debates com os presidenciáveis estão sendo exibidos em quatro diferentes canais russos. O formato é sempre o mesmo – um candidato contra o outro, nunca os cinco juntos. Dos quatro canais que exibirão os debates, três são controlados pelo Estado e um pela prefeitura de Moscou. Vladimir Putin, através do seu porta-voz, informou que não participará de nenhum debate porque “atrapalharia as suas responsabilidadescomoprimeiro-ministro”, mas prometeu enviar representantes.

Resumo da ópera, após longos suspiros

No dia 4 de março, se eu fosse russo, iria ao colégio eleitoral e faria o desenho do Cheburashka (“Mickey Mouse soviético”) na cédula eleitoral.

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3 respostas para O meu voto nas presidenciais da Rússia

  1. Stella Bruk disse:

    ahahahah e viva o Cheburashka!!! Cheburashka para presidente!!

  2. Scherer disse:

    Putin com certeza. O atual partido comunista é patrocinado pelos EUA. Putin restaurou o rogulho da Rússia e a recolocou no cenário mundial novamente

    • Putin recolocou a Rússia no cenário mundial graças à subida do preço do gás e do petróleo depois do 11 de setembro, mas a economia russa é muito dependente da exportaçao de energia. Se nao diversificarem, o BRICS vai perder o R muito em breve. Um abraço, SF

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