Criatividade e velhos clichês dividem a campanha política russa

Três meses após as legislativas de dezembro, os russos se preparam mais uma vez para ir às urnas, depois de uma campanha marcada por manifestações multitudinárias pró e anti-Kremlin, além de um forte uso da máquina estatal para garantir o apoio ao primeiro-ministro e candidato à presidência Vladimir Putin. As presidenciais estão marcadas para o dia 4 de março.

Na Rússia, as únicas três televisões que cobrem todo o território nacional são controladas, direta ou indiretamente, pelo Kremlin. A mídia impressa independente se resume a alguns poucos diários que circulam apenas nas grandes cidades. Com a televisão e os jornais controlados pelo poder central, a internet se transformou na principal plataforma de ativismo da oposição. E não faltou criatividade.

Um dos vídeos mais populares desta campanha política na Rússia mostra o primeiro-ministro Vladimir Putin atrás das grades, sendo interrogado por um juiz. O vídeo é uma montagem com o julgamento real do ex-oligarca Mikhail Khodorkovsky, preso em 2003 por sonegação fiscal. A comunidade internacional classifica Khodorkovsky como preso político e o vídeo teve quase cinco milhões de acessos.

Nesta semana, a jovem socialite Ksenia Sobchak, conhecida como a Paris Hilton russa, gravou um vídeo que já foi assistido por 1 milhão de pessoas. No vídeo, a jovem declara o seu apoio a este candidato (presumidamente Putin) e explica que a situação econômica na Rússia é melhor agora e que não vale a pena correr o risco de uma Revolução Laranja (como na vizinha Ucrânia). No fim do vídeo, a câmera abre e vemos Sobchak amarrada numa cadeira, com seguranças a obrigando a defender Putin. Sobchak denuncia a pressão que artistas e famosos sofrem na Rússia, sem alternativa a não ser apoiar Vladimir Putin. A família da socialite é aliada do Kremlin e seu pai, ex-prefeito de São Petersburgo falecido em 2000 por causas ainda desconhecidas, era amigo pessoal do presidenciável Putin.

A maioria dos vídeos pró-Kremlin enquadra-se no que se define como “astroturfing”. Os movimentos parecem espontâneos e populares, mas são ações políticas ou publicitárias, no caso da Rússia, organizadas pelo movimento juvenil Nashi, com apoio do Governo.

Um dos vídeos pró-Kremlin mais populares foi feito em frente à Embaixada dos Estados Unidos em Moscou. Cinco jovens com máscaras dos líderes da oposição aparecem rezando diante da Embaixada. O vídeo é uma referência ao financiamento dos oposicionistas por grupos estrangeiros, com destaque aos Estados Unidos. A interferência externa no país ainda é vista com muita precaução na Rússia e o vídeo rapidamente se transformou num hit da internet.

No ano passado, dois movimentos formados por jovens russas saltaram aos noticiários internacionais devido ao forte apelo sexual. Um grupo de jovens criou o Exército de Putin e outro grupo, As Meninas de Medvedev. Com roupas muito ousadas e vídeos que enfocavam os atributos físicos das ativistas, as jovens foram duramente criticadas pelas feministas e aplaudidas por rapazes com duvidoso interesse político. Numa das campanhas mais polêmicas, sugeriam “Mostre os seus seios por Putin”, um sucesso no grupo Vkontatke (principal rede social russa).

A propaganda oficial dos partidos também está sendo alvo de grande debate na blogosfera. O vídeo de apoio a Vladimir Putin mostra uma atraente jovem russa conversando com um psicólogo sobre a sua primeira vez. O psicólogo diz entender o medo da jovem, mas diz que não há o que temer se a decisão for tomada com amor. A jovem parece aliviada e a câmera mostra uma edição da revista “Time” com Putin na capa. E o psicólogo continua: “No seu caso, pode confiar”. O vídeo termina com a jovem indo (pela primeira vez) à seção eleitoral.  A  oposição aproveitou o slogan “Putin. Primeira vez, somente por amor” e fez uma paródia – “Putin. Terceira vez, somente à força”

O anúncio do presidenciável Prokhorov também chamou a atenção de especialistas em marketing político devido ao forte tom de adesão incondicional, quase automática. Na propaganda, uma professora aparece fazendo a chamada dos alunos. Começa com trocadilhos com o nome de outros candidatos – Zyuzanov (em vez de Zyuganov), Jijinovsky (em vez de Jirinovsky), ambos em sala –, mas quando chama Prokhorov, ninguém responde. De repente, um dos estudantes se levanta e diz: “Eu estou por ele (Prokhorov)”, sendo seguido por todos os outros alunos. No final do comercial, a professora também repete a frase.

O maior acesso às redes sociais sem dúvida catalisou a espetacularização da campanha política na Rússia. No entanto, a utilização dos meios de comunicação de massa para alavancar a popularidade de determinados políticos (especialmente Putin) não é novidade no país. Em 2004, o grupo russo Cantando Junto gravou a pegajosa música “Takogo kak Putin” (Alguém como Putin), onde uma loira e uma morena cantavam “Eu quero um homem como Putin / Alguém como Putin, cheio de força / Alguém como Putin, que não seja um bêbado / Alguém como Putin, que não vá me machucar / Alguém como Putin, que não vá fugir”. A música é até hoje sucesso na noite moscovita.

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