Aventuras no avião: os russos são sisudos… até o primeiro gole

São três da tarde de uma quinta-feira com cara de comecinho de primavera. Quase metade de abril e Moscou ainda está coberta de neve. Eu me acomodo no assento da aeronave que me leva até os Emirados Árabes Unidos para uma rápida escala rumo à África do Sul. Carrego comigo livros e papeis, torcendo pra não ser incomodado por nenhum turista mais comunicativo ou um russo chato. Mas ao meu lado, sentam-se mãe e filho. Russos.

Vera Aleksandrova é loira, tingida, classe média média, carrega uma bolsa quero-ser-chique e viaja de terninho azul-claro, também no estilo quero-ser-chique. Unhas pintadas de roxo. É uma perua, mas sem a grana das perigosas peruas. Adora Sochi (o balneário russo que receberá as Olimpíadas de Inverno de 2014, uma espécie de Búzios daqui – ou Cabo Frio). Tem medo de viajar de avião e por isso bebe vodka a bordo.

O filho Maksim, de 20 anos, segue os passos da mãe. Bebe uísque como se fosse suco, mas não pra aliviar o medo de voar. Bebe por gosto mesmo ou para parecer cool. São três doses em menos de 30 minutos. A mãe não o critica e até ri, orgulhosa do filho que confirma o estereótipo do macho russo beberrão (e bobão). Maksim estuda algum curso técnico e trabalha numa fábrica no sul de Moscou.

Nenhum dos dois fala nada de inglês.

Vera e Maksim vão passar três semanas nos Emirados Árabes Unidos. Vera já foi uma vez, agora leva o filho e me conta animadamente sobre a riqueza do pequeno país, os hoteis com detalhes em ouro e outros luxos. Não demonstro tanta empolgação e ela se surpreende, talvez por fazer parte de um grupo que vê os ocidentais como o exemplo da finesse e do bom-gosto. E ostentação na Rússia é sinônimo de bom gosto, claro.

Antes de que o avião decolasse, o jovem comenta com os amigos por telefone que estava conversando com um jornalista brasileiro. Ter uma amigo estrangeiro é sempre um plus para a sociedade russa.

O papo já começa com o novo tema preferido dos russos – política. A mãe votou em Putin. O filho também.

Vera foi a Lújniki, no comício pró-Putin realizado às vésperas das presidenciais de março, mas deixou claro que não recebeu dinheiro do partido situacionista Rússia Unida para participar do evento, como foi denunciado pela oposição.

“Temos carro, temos datcha (casa rural), temos apartamento. Do quê mais precisamos?”, indaga-me retoricamente a mãe. Quando perguntada sobre Medvedev, é categórica: “Gosto dele, mas não tem o mesmo carisma de Putin”.

Fazemos brindes – eu com minha cervejinha e eles com vodka e uísque. “Três brindes, como manda a tradição russa”, insiste a mãe. “Dois é ruim. Tem que ser três”. “Mas e se esquecermos e fizermos mais de três brindes?”, pergunto em tom irônico. Os dois pensam, pensam e a mãe, sem entender muito, responde: “Ah, mais de três é melhor ainda. Ficamos no lucro”. Tradições na Rússia são sempre flexíveis. Muitas vezes, quanto mais, melhor, somente para garantir a tal da sorte.

Apesar de aparentemente estarem longe de representar uma elite intelectual, a mãe me pergunta o que acho da vida cultural de Moscou. Comento que havia ido à ópera no fim de semana anterior e a conversa logo muda de foco, para o desinteresse do filho. Falamos do aclamado escritor Bulgakov, conhecido por quase todos os russos e muitas vezes citado religiosamente em conversas. Aquela senhora tão deslumbrada com o novo poder de compra que o capitalismo parece lhe proporcionar não havia esquecido o que o socialismo lhe havia proporcionado durante a época soviética – educação de qualidade (ou pelo menos, melhor do que a de hoje).

Deixamos um pouco a política e voltamos pras conversas mais simples. Ou não. “Você é casado?”. “E por que não?”. Um homem de 27 anos solteiro ainda não é muito normal na sociedade russa. “E sem namorada? Mas as russas são bonitas, não?”. Sim, as russas são lindas, penso eu, mas melhor não entrar em detalhes da minha vida sentimental. Não quero chocar meus mais novos amigos com temas de sexualidade. Apesar d’eu ser estrangeiro, o que provavelmente justificaria a homossexualidade na cabeça destes russos, prefiro mudar de assunto. Maksim me mostra a foto da namorada e a mãe sorri orgulhosa. “Bonita, sim? Temos que sair um dia pra dançar. As amigas da minha namorada são bem bonitas também, você vai gostar”.

Voltamos à política, graças a Putin. “Nós sobrevivemos a Ieltsin e a Gorbachev. Os anos 80 e 90 foram muito difíceis. Pode até ser que Prokhorov tivesse uma boa proposta eleitoral, mas prefiro a estabilidade, a certeza de que continuaremos a ter comida nas lojas”, revela-me Vera. Prokhorov é um oligarca russo que concorreu à presidência do país em março, mas terminou em terceiro lugar, atrás do vitorioso Vladimir Putin e do candidato comunista, Zyuganov. No entanto, Prokhorov chegou em segundo na contagem dos votos de Moscou, alavancado pela classe média urbana que busca(va) reformas liberais. Vera não se convenceu e preferiu a continuidade do programa político de Putin, mais previsível.

A esta altura do campeonato (e do voo), Maksim já está cantarolando. E não é o único. Alguns passageiros do fundo da aeronave celebram algo (ou talvez não celebrassem nada) e fazem brindes e mais brindes, seguidos de aplausos. “O uísque é grátis?” “Sim, sim”, responde a única aeromoça que fala russo, responsável por controlar o limite dos incontroláveis russos. “Coitada da moça”, penso com meus botões.

Daqui pra frente, um festival de gafes e sorrisos amarelos. Música, falso cigarro aceso a bordo, água derrubada em mim pela mãe loira. Enfim, coisas que só um voo de ou para a Rússia podem te proporcionar. E coisas que só um sorriso amigável brasileiro pode aguentar.

Falta pouco pra Abu Dhabi e fico mais aliviado. Maksim já havia pedido o meu contato nas redes sociais, telefone, endereço e disse que seríamos grandes amigos quando voltássemos a Moscou. Maksim já havia pedido também o telefone da aeromoça que falava russo.

Apesar de já estar na faixa dos 50 anos, a mãe também cumpre o estereótipo da nova russa, muito vaidosa. Penteia suas madeixas amarelas, passa maquiagem, olha-se no espelho e sorri para ver se os dentes estão brilhando.

Ainda usando o pronome de tratamento formal “вы”, algo como “o senhor”, vem o convite para visitar a casa deles.  Aceito e combinamos que assim que eu voltar a Moscou, eles me mostrarão todas as fotos das três semanas nos Emirados Árabes Unidos e eu contarei um pouco sobre a vida no Brasil, com novelas, carnaval e futebol.

Fim da viagem. Como digo sempre, os russos são sisusos… até o primeiro gole.

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3 respostas para Aventuras no avião: os russos são sisudos… até o primeiro gole

  1. João Gabriel disse:

    Gosto de seus relatos sobre os Russos porque explicam perfeitamente todas as minhas próprias impressões. De Maksins e Veras este país está cheio. Em meu voo um pouco mais tarde no mesmo dia também encontrei uma mãe e uma filha (muito bonita, como de praxe) Russas indo passar um mês nos Emirados – felizmente esta falava Inglês. Russos clássicos!

  2. Rodolfo Lucheis disse:

    Muito bom! Aqui eu conheco uma Russia diferente!
    Agora, para que eles não sejam sisudos, é fundamental falar o Russo não?
    Eles hoje começam a descobrir o que nós, de certa forma, já sabemos

  3. andrerj75 disse:

    Gostei muito do seu blog!

    Já estou seguindo!

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