Feriadão na datcha – a casa de campo dos russos

Quem se muda para a Rússia ouve desde o começo uma palavra curtinha, mas que logo é incorporada ao vocabulário do dia-a-dia – дача (datcha). A primeira interpretação que fazemos é de uma casa de campo, mas com o tempo notamos que o conceito não é suficiente para explicar o significado da datcha para os russos. A datcha é quase uma instituição no país. Comuns desde a época da União Soviética, são casas normalmente simples utilizadas pelos russos durante o verão como forma de fugir do calor e da correria das grandes urbes.

Estima-se que cerca de 50% das famílias russas que vivem em grandes cidades tenham datchas. Durante a época soviética, o tamanho destas residências temporárias era severamente controlado. Entre 1963 e 1985, eram permitidas apenas casas de um andar, sem aquecimento permanente e com área habitável máxima de 25 m². Em 1990, estas restrições foram eliminadas. Agora, principalmente em regiões próximas a Moscou, há verdadeiros condomínios de luxo com datchas nos moldes das mansões americanas, mas que são usadas apenas como casa de campo durante os meses de primavera e verão (de maio a agosto) e em algumas festividades ou feriados longos e/ou importantes, como Páscoa e Ano Novo.

Os feriados do mês de maio na Rússia (1º de Maio, Dia do Trabalhador e 9 de maio, Dia da Vitória) são especialmente importantes para a cultura da datcha porque representam (pelo menos no imaginário coletivo) os primeiros dias de férias sem a neve que se impõe no país durante cinco ou seis meses. Os russos aproveitam a primeira semana de maio para ajeitar a sua casa rural, a horta, o jardim, fazer uma bela limpeza e começar a sonhar com os churrascos, passeios pelos bosques e mergulhos nos lagos e rios.

Para entrar verdadeiramente na tradição russa, resolvi aceitar o convite de uma querida amiga para passar dois dias na datcha dela. A apenas 65 kmde Moscou e uma hora e meia de trem, a região rapidamente me faz esquecer a correria da capital da Rússia, a maior cidade europeia. Lagos, rios limpos, pouco trânsito, verde, verde, verde. Minha amiga já me avisa: “Sandro, o local é simples, vida rural mesmo. Venha preparado”. E para um sujeito urbano como eu, qualquer local sem as “facilidades” da cidade grande já se transformam numa grande aventura. Água? “O poço fica aqui perto”. Banheiro? “Ah, tá vendo aquela portinha do lado de fora?”. Ônibus? “Então, o ponto de ônibus fica ali, mas não sei com quem frequência passa”. Internet? “hahaha Era piada, não?”. Luz? “Se houver algum problema de energia, temos lanternas”.

Bem, passada a adaptação às novas condições, tive a oportunidade de vivenciar um pouco o refúgio de tantas famílias aqui na Rússia, o sonho de 10 entre 10 russos da classe média urbana. Minha amiga anfitriã me mostra os móveis, muitos com suas histórias que ultrapassam décadas e gerações. Apesar de ser uma casa reformada, bem confortável, o clima de nostalgia toma conta do pensamento de qualquer visitante. Um álbum de fotos em cima da cômoda confirma o espírito. A mãe da minha amiga, uma simpática octogenária, me mostra um vaso que pertenceu à sua mãe. As roupas (algumas de muito bom gosto, por sinal) guardadas nas estantes enormes são dos familiares já falecidos. Parece que as datchas também servem às vezes de “quartinho dos fundos”, onde é possível guardar aquela quinquilharia inútil, mas com valor sentimental. Tomamos chá e descansamos um pouco.

Os dias na datcha são simples. Todos os russos exibem orgulhosos “o tomate que eles mesmos plantaram” e “as flores que começam a brotar”. Para o urbano novo-rico ou classe-média, esta experiência com a terra é mais importante do que nós, brasileiros, podemos imaginar. O médico, o advogado, o engenheiro, não importa, todos levam a sério os dias que passam na datcha, como se fosse uma terapia coletiva, uma limpeza da alma. Não acho que seja como a casa de veraneio da classe média brasileira. É algo mais importante, algo que remete à tradição e a um certo alívio. É como se aquela vida urbana, por mais reluzente que possa ser (ou parecer), ainda não fosse algo normal e prazeroso para os russos. Quem chega a Moscou geralmente se assusta com o refinamento dos lugares de ócio, mas é nas datchas que os russos mostram quem são. A geleia preparada com as frutinhas do jardim, a sopa de beterraba (borsch), o trigo sarraceno (esta foi a tradução que achei para гречка) e, claro, a vodka nossa de cada dia – nada disso pode faltar.

Em maio ainda faz um pouco de frio na Rússia. É primavera, os países mediterrâneos da Europa já estão com seus 30ºC, mas em Moscou a temperatura ainda fica na casa dos 10ºC. “Pelo menos não temos neve”, insiste a mãe da minha amiga, tentando arrancar o sorriso de um brasileiro.

Comemos, conversamos, comemos, andamos, comemos. E assim passou a experiência na datcha. Saí de lá me sentindo mais russo e fiquei até com vontade de ter a minha datcha. Retorno a Moscou. Engarrafamento, metrô, pressa. De volta às “facilidades” da vida urbana.

* Agradecimento especial à Olga Kozhevnikova, à sua mãe e aos vizinhos da datcha, que me acolheram de maneira tão calorosa.

E nos trens russos, vende-se de tudo. De guarda-chuva…

… a mapas.

Cidade de Zvenigorod, onde o trem chega de Moscou

Zvenigorod

A fita laranja e negra no carro é em comemoração ao Dia da Vitória (russa contra a Alemanha, na Segunda Guerra Mundial)


O banheiro da datcha

Datcha é sinônimo de churrasco

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5 respostas para Feriadão na datcha – a casa de campo dos russos

  1. Ana Carolina disse:

    Interessante como alguns termos comportam um mundo de significados! As datchas parece-me remeter a um tempo idílico! Otima “traduçao” a sua! Beijos!´

  2. sandra disse:

    Adorei seu blog, Sandro. Parabens…

  3. eliane disse:

    legal, vou colocar seu link no meu blog, estive por aí, agorinha, maio de 2013 e peguei calorão, obrigada, abraços.

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