Ensino superior russo entre a modernização e velhos entraves

A Rússia viveu nas últimas duas décadas mudanças estruturais sem paralelo com nenhum outro país do mundo. Depois de mais de 70 anos de regime soviético, com uma economia centralizada, o país se lançou à economia de mercado sem passar por um real período de transição entre os dois modelos. Antes da revolução bolchevique de 1917, estima-se que 85% da população era analfabeta. No entanto, os grandes esforços para a universalização da alfabetização na União Soviética resultaram, já na década de 40, num índice de analfabetismo perto de zero. E estes números mantêm-se até hoje na atual Federação Russa.
Mais da metade dos adultos possui um diploma de nível superior, de acordo com dados da Unesco. É o dobro da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Sete milhões e meio de estudantes estão matriculados nas universidades do país e os estrangeiros representam 5,2% destes alunos, metade deles provenientes das antigas repúblicas soviéticas. Em 2010, a Rússia contava com 1.114 instituições de ensino superior, sendo 662 públicas e 452 privadas. As instituições mantidas pelo Estado recebem 82% dos estudantes, enquanto que as universidades privadas ficam com 18% dos alunos.

 
Reorganizando a casa
As reformas levadas a cabo nos últimos 20 anos mudaram consideravelmente a sociedade russa e criaram um país que ainda tenta se equilibrar entre o protecionismo e o (neo) liberalismo. O sistema educacional foi uma das esferas que precisaram se adaptar ao novo modelo político-econômico, mas as reminiscências soviéticas ainda podem ser observadas na estrutura acadêmica. O sistema não estava alinhado aos valores básicos do livre mercado, como competitividade, dinamismo, autogestão, iniciativa privada e havia um medo de que a mudança fosse ser um imenso fracasso. Não foi.
O ex-presidente Dmitry Medvedev, e atual primeiro-ministro, escolheu a palavra “modernização” como símbolo do seu mandato, incluindo a reforma educacional como uma das prioridades do governo. E o novo presidente Vladimir Putin, que tomou posse em maio deste ano, pretende manter as reformas liberais começadas por Medvedev, com o incentivo ao crédito educativo, a renovação da infraestrutura das universidades e o investimento na internacionalização da educação russa seguindo os modelos ocidentais.
O novo ministro da Educação e Ciência, Dmitry Livanov, ao assumir a pasta, destacou em entrevista coletiva a importância de que a Rússia desenvolva centros regionais de educação, para desenvolver o país como um todo e evitar que as pessoas continuem atraídas por Moscou. É nesse sentido que se desenvolve o polo científico de Skolkovo. A cidade localizada a cerca de 20 km da capital recebe pesados investimentos governamentais e empresariais e promete ser um centro educacional de inovação e tecnologia.
Outro esforço do atual governo, anunciado por Livanov, vai na direção da criação de um sistema de empréstimo para estudantes sem condições financeiras de custear os gastos com ensino superior. Após o fim da república socialista, o financiamento estudantil ainda é um tema polêmico no país.
Empréstimos para estudantes são oferecidos apenas por um banco russo, o Sberbank. O crédito pode cobrir ate 70% dos gastos acadêmicos do aluno e a taxa de juros é de 22% ao ano, com 10 anos para pagamento. Os trâmites para tomar o empréstimo são exigentes e o banco ainda pode aumentar a taxa de juros no decorrer do contrato, o que faz com que a iniciativa não seja popular entre os estudantes. Para alguns especialistas, o programa do Sberbank tem como objetivo apenas melhorar a imagem da instituição financeira.

 
Sistema em transição
Em 2003, o sistema de educação superior russo adotou o Processo de Bolonha, com cursos de quatro anos de bacharelado e mais um ou dois anos do master, em substituição ao antigo modelo soviético de cinco ou seis anos de formação de especialistas. No entanto, o diploma de bacharel é subvalorizado no mercado de trabalho, que preconiza graduados com diploma de master. Com o novo sistema, a pós-graduação também passou a ser permitida somente aos estudantes com formação master.
Os críticos da implementação de Bolonha na Rússia afirmam que o sistema de ensino superior agora é um híbrido dos modelos soviético e europeu resultando em um sistema pior que os outros dois. O bacharelado russo pós-Bolonha funciona como os primeiros quatro anos do anterior programa de especialista da ex-URSS. Não foi feita uma adaptação da grade curricular ao novo modelo. Simplesmente dividiram o antigo sistema em duas etapas, em vez de colocar todo o programa de “especialista” nos quatro anos, como era esperado. Outro problema é que nem todas as universidades da Rússia implementaram o programa de Bolonha, que corre o risco de ficar somente no papel.
A modernização do ensino superior na Rússia também é dificultada pela baixa mobilidade de estudantes e professores. Os altos custos de realocação e a falta de tradição na maioria das universidades russas de contratar professores de outras regiões são entraves para o desenvolvimento das instituições. A mudança de registro domiciliar na Rússia é um processo burocrático que pode demorar alguns meses.
O fator demográfico também não pode ser esquecido quando a educação superior é analisada. O declínio da população russa ao longo das duas últimas décadas e o aumento do número absoluto e relativo de estudantes com nível superior não acompanham a qualidade da educação correspondente às demandas do mercado laboral. Entre 1995 e 2009, o número de universidades públicas se manteve praticamente estável, com um aumento de 16%. Por outro lado, o número de instituições privadas deu um salto no mesmo período, aumentando em 134%.
Para valorizar a formação de qualidade e a obtenção do diploma superior, o ministério de Educação da Rússia pretende a médio prazo diminuir o número de instituições de nível superior. Mas a medida já vem sendo discutida desde 2008.

 
Esforço para expansão
Quando o assunto é a internacionalização do ensino superior, o gigante branco parece continuar hibernando. A Rússia ainda não é vista como um ator global na área da educação e quando comparada aos outros países do grupo dos BRICs, as diferenças ficam ainda mais evidentes. Junto com a Índia e a China, países emergentes apontados como principais exportadores de estudantes no mundo, o Brasil tem se tornado uma das regiões de maior interesse como destino de estudantes estrangeiros. Segundo um relatório da OCDE, os dois principais obstáculos para a internacionalização do ensino superior da Rússia são o não reconhecimento de diplomas estrangeiros e a falta de compatibilidade dos programas do sistema educacional russo com o de outros países.
As universidades russas também não constam nos principais rankings globais que avaliam a qualidade das instituições. O baixo número de publicações em jornais e revistas especializadas preocupa, já que o meio acadêmico da Rússia insiste em publicações em russo, enquanto as principais revistas científicas utilizam o inglês.
Mas com a internacionalização do ensino superior russo presente entre as principais demandas do setor nas últimas duas décadas, os esforços para mudar este cenário começam a aparecer. Em dezembro de 2011, o então presidente Dmitry Medvedev assinou uma lei permitindo o reconhecimento auto­mático do diploma de algumas universidades estrangeiras, reduzindo assim a burocracia que dificulta a contratação de acadêmicos de outros países. Já a participação da Rússia como destino de estudantes estrangeiros ainda é baixa, mas mostra sinais de crescimento. Entre 2000 e 2009, o país dobrou a sua parcela na mobilidade global de estudantes, passando a receber de 2% a 4% do total de alunos que estudam no exterior.
O governo russo também tem interesse que seus melhores alunos estudem em outros países e, para isso, anunciou um novo programa de empréstimos, com início em 2013, para apoiar estudantes em determinadas áreas consideradas mais relevantes para o Kremlin, como gestão e administração públicas. O empréstimo será perdoado caso o estudante volte para a Rússia por um período de pelo menos três anos.
De acordo com Putin, o investimento em ensino superior na Rússia duplicou nos últimos cinco anos. e o novo presidente ainda prometeu a criação de uma cadeia de universidades de nível internacional até 2020. Enquanto isso, o crescimento do número de estudantes estrangeiros na Rússia ainda se deve aos alunos vindos das ex-repúblicas soviéticas. O idioma é uma grande barreira e o custo de estudar em inglês na Rússia é considerado elevado.


As providências políticas para que o país possa acompanhar o ritmo das universidades com selo internacional são cobradas por pesquisadores russos. Segundo Daria Luchinskaya, M.Phil. em Estudos da Rússia e da Europa Oriental pela Universidade de Oxford, o país precisa aumentar a participação de especialistas estrangeiros nas instituições russas ao mesmo tempo em que estimula a exportação de profissionais. “Promover este intercâmbio é importante porque sempre aprendemos com as experiências alheias”, comenta.
Os aspectos positivos do sistema russo, e que poderiam servir de modelo para o Brasil, são destacados pela brasileira Ana Tereza de Andrade, doutoranda em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que trabalhou durante um ano como professora leitora na Universidade do Estado de Moscou (MGU), uma das instituições mais prestigiadas do país. Segundo ela, a vivência universitária na Rússia é maior que a do Brasil, já que muitos estudantes passam o dia inteiro no campus e há diversas atividades extracurriculares. A professora também observa a valorização dos estudantes na Rússia por meio de apoios recebidos pelo Estado. “Os estudantes na Rússia têm muito mais direitos garantidos que os brasileiros. Eles pagam um valor ínfimo no transporte local e têm ótimos descontos em museus e teatros”, acrescenta.
A criação de campi de universidades russas no exterior também é uma estratégia que deve ser avaliada pelo Ministério de Educação russo. Na opinião da especia­lista Daria Luchinskaya, as principais universidades do mundo que expandem seus campi para outros países acabam beneficiadas com a divulgação do trabalho acadêmico acelerando o processo de reconhecimento internacional. “É importante salientar que o processo de internacionalização não é algo específico da Rússia. A necessidade de adquirir um selo global é uma tendência em todo o mundo e países em desenvolvimento têm feito grandes esforços neste caminho”, completa Daria.

Formas de acesso

O ensino superior russo está dividido em instituições privadas, conhecidas por lá como comerciais, e instituições públicas, ou seja, administradas pelo Estado. A anuidade em uma universidade privada varia de acordo com o curso e a cidade, mas os valores rondam entre 40 e 50 mil rublos (R$ 2,5 a 3 mil). Nas instituições administradas pelo Estado, há vagas pagas e vagas gratuitas. As vagas pagas podem atingir valores de até R$ 20 mil anuais, nas universidades de ponta de Moscou. Já as vagas gratuitas dependem de uma disputa muitas vezes acirrada. Os universitários que estudam sem pagar mensalidade têm direito a bolsas semestrais do governo. As bolsas variam entre R$ 400 e R$ 800 e normalmente dependem apenas das notas do estudante. Os critérios variam, mas o principal requisito costuma ser o bom desempenho do aluno.
Bolsas para estudantes de famílias de baixa renda ou com pais aposentados também são garantidas pelo governo. E os universitários que moram longe do campus têm direito à residência estudantil quase gratuita.

Skolkovo: uma cidade programada para inovar

O Centro de Inovação de Skolkovo, a exemplo do Vale do Silício, é a aposta da Rússia para colocar o país entre as novas potências mundiais. A ideia de tornar a cidade um polo de tecnologia e inovação foi concebida na primavera de 2010, com o objetivo de concentrar a formação de capital intelectual e desenvolver projetos científicos e de negócios. O polo está dividido em cinco conglomerados de produção – informação, biomedicina, eficiência energética, pesquisa nuclear e tecnologia espacial. O polo educacional abriga, desde 2011, a Universidade Aberta de Skolkovo. A instituição não emite diploma universitário, mas está voltada à formação específica do contingente que atua nas empresas da região. Já o Instituto Skolkovo de Ciência e Tecnologia, cujo projeto está em fase de licitação, está programado para ser o principal centro de ensino superior da região. Cerca de 400 empresas já manifestaram o desejo de participar do projeto de Skolkovo. Gigantes como as americanas Intel, Cisco e Boeing, a finlandesa Nokia e a holandesa Phillips já assinaram contratos para investir em projetos da região. A Cisco é a empresa privada com o investimento mais representativo, tendo previsto US$ 1 bilhão de aporte financeiro. Já o governo russo se comprometeu com US$ 6 bilhões para promover a inovação e o empreendedorismo tecnológico de Skolkovo.

Entraves para o desenvolvimento
Como pode ser observado pelas experiências vividas por russos e brasileiros, o estereótipo da Rússia burocrática, estratificada pela hierarquia, moralmente frouxa e com recursos voltados especialmente para o setor militar deixa vestígios que contrastam com a dimensão geográfica e potencial de um país que ainda busca um modelo de sociedade mais democrática.
Um exemplo é o sistema universal de acesso ao ensino superior, o EGE (Edinyi Gosudarstvennyi Examen), introduzido pelo Ministério da Educação daquele país em 2001 com o objetivo de combater a corrupção nos exames de acesso. Porém, até hoje ele apresenta enormes diferenças regionais no controle e implantação do exame, com algumas províncias da Rússia conseguindo resultados estatisticamente impossíveis.
O problema da corrupção no país não é novidade e pode ser observado em todas as esferas da sociedade. E dentro das universidades, a situação não é diferente. Há alguns anos, um professor da universidade de Perm foi condenado a três anos e meio em liberdade condicional por ter cobrado US$ 100 de cada aluno para garantir a aprovação em um exame. “Todos sabemos como ter boas notas. O professor não precisa pedir nada porque entendemos quando ele começa com indiretas sobre a dificuldade da vida acadêmica e sobre quão difícil será o próximo teste. Exames de fim de curso podem ser comprados com presentes, como relógios e garrafas de bebida que atingem valores como 10 mil rublos. Funciona como uma troca de favores”, diz o residente médico M.V., que preferiu não revelar o nome.
Uma das razões para essa forma de suborno é a baixa remuneração do setor. Enquanto primeiros-tenentes do exército russo recebem entre 50 mil e 80 mil rublos mensais (o equivalente a R$ 5 mil), um professor universitário recebe em média 15 mil rublos (R$ 930).

Experiências brasileiras

Inayê Brito é bacharel em Têxtil e Moda pela USP e passou um ano e meio em Moscou, num intercâmbio na Universidade Russa da Amizade dos Povos (RUDN). Gostou tanto que voltou e agora cursa o mestrado em Indústria Criativa. A estudante brasileira relata que teve um choque com a formalidade entre as pessoas, também refletida na sala de aula. “Tudo é bem hierarquizado. Professor fala, aluno escuta e não questiona. Alguns russos dizem que isto é ‘respeito’, mas eu vejo isso como uma grande barreira no desenvolvimento de um pensamento livre e crítico”, opina Inayê.
Um ponto positivo é a ajuda social do governo para os alunos bolsistas. Inayê destaca o fato de muitos alunos na Rússia receberem uma bolsa mensal de acordo com as notas. Quanto mais altas as notas, maior é a bolsa. Por outro lado, a grade curricular é sempre fixa, com disciplinas interdependentes e poucas possibilidades de interação com outros cursos ou áreas de estudo. “Só que há tanta burocracia que se tentassem flexibilizar, o sistema entraria em colapso entre papéis e carimbos”, acredita.
Já Ana Tereza de Andrade, doutoranda da UFRJ, também teve dificuldades no início com a formalidade russa. “Todos os alunos utilizavam o pronome de tratamento para se dirigir a mim, como o ‘senhora’ que temos no Brasil. Por mais que eu insistisse para que me chamassem pelo nome, eles continuavam”, conta.


A professora diz que a experiência no país foi muito positiva, porém a falta de preparo para receber um professor estrangeiro foi a maior dificuldade que teve no ano que passou em Moscou. De acordo com Ana, a maioria dos funcionários administrativos só fala o idioma russo e quase não há apoio dos departamentos. “Mas acho que um estrangeiro no Brasil teria problemas semelhantes”, questiona.

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Uma resposta para Ensino superior russo entre a modernização e velhos entraves

  1. Jeferson Rosa disse:

    A Rússia pelo menos tem tentado mudar!

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