Popular entre a juventude russa, Putin mantém apoio apesar da “mão de ferro”

Presidente da Rússia em seu terceiro mandato, Vladimir Vladimirovich Putin, ou VVP, como também é chamado, conseguiu um feito difícil entre os políticos: se tornar uma espécie de celebridade e modelo para os jovens.

Antes mesmo da vodka, do frio e das bonecas russas, Putin se transformou no principal estereótipo da Rússia pós-URSS e essa popularidade, aliada à falta de uma oposição clara, tem impulsionado sua carreira política desde o fim dos anos 90.

Alguns atribuem o fenômeno do putinismo a um carisma próprio do mandatário, enquanto outros apontam uma eficiente máquina de propaganda por trás da admiração que, internamente, pode beirar o culto à personalidade. A Rússia de Putin centralizou tanto o poder na figura do presidente, que as 83 subdivisões da Federação Russa vêm gradualmente perdendo autonomia.

Agência Efe

A admiração das jovens a Putin é tamanha que 20% delas dizem que gostariam de se casar com o presidente

O retorno à realidade da década de 90, com escassez de alimentos e forte presença de máfias organizadas, é o principal medo dos russos e o Kremlin sabe disso. Putin também. Até mesmo entre os mais jovens, que pouco se lembram dessa época, a comparação com os turbulentos anos de Boris Iéltsin parece inevitável.

Uma pesquisa da Academia Suíça para o Desenvolvimento (SAD, na sigla em inglês) indica que 73% dos jovens russos confiam no presidente, mas apenas 39% acreditam no governo. Incoerência ou criação de uma celebridade nacional?

“Nosso país vem melhorando desde que Putin assumiu a Presidência. Eu posso ver e sentir isso. A oposição quer convencer as pessoas de que elas vivem mal por causa do governo e não por causa delas mesmas”, explica Alex Nikol, de 29 anos.

Economia

O crescimento econômico da Rússia é inegável, ainda que quase completamente baseado nas exportações de hidrocarbonetos. Gás e petróleo representam 70% das exportações e 35% do PIB (Produto Interno Bruto) da Rússia, configurando o país como o maior exportador de gás natural do mundo e o segundo de petróleo. O aumento do preço do ouro negro no mercado internacional e a desvalorização do rublo no início do mandato de Putin favoreceram as exportações russas na última década e, somente no ano de 2011, o superávit comercial atingiu 84 bilhões de dólares.

Hoje a Rússia tem o nono maior PIB do mundo (em 1999, o país era a 23ª maior economia), mas essa mudança teve o seu preço. Apenas 18% dos russos fazem parte da classe média (contra 52% no Brasil) e 12% ganham menos do que o valor mínimo para sobrevivência (estipulado em 420 reais pelo governo). No entanto, quando perguntados a que classe pertencem, quase 40% dos russos se definem como classe média.

O especialista Denis Dafflon, da SAD, explica que a atitude dos jovens russos em relação à política é marcada por muitos contrastes. Por um lado, destaca um alto grau de desconfiança em relação aos políticos, instituições e o sistema político russo como um todo. Por outro, as decisões do presidente, tanto no mercado interno e internacional, são aprovadas pela maioria dos entrevistados. “Em suma, poderíamos dizer que jovens russos parecem ser a favor da direção da política atual, mas não da forma como o sistema funciona”, sublinha Daffon.

Além disso, 35% dos jovens russos acreditam que o país deve sempre ser controlado por alguém com mão forte e outros 36% defendem que uma política mais dura é necessária em algumas situações. E o atual presidente corresponde a essas expectativas. “Putin impediu o colapso da Rússia e conduziu o nosso país a um novo nível de desenvolvimento. Ainda falta muito, mas ele precisa do nosso apoio para seguir o trabalho que começou”, diz Roman Khayrullin, de 28 anos.

Os petrorublos e os “gasorublos” conseguiram alterar a vida apenas de uma minoria e criar a falsa ideia de estabilidade para o restante, mas também permitiu que Putin implementasse reformas sociais que lhe garantiram popularidade. A aposentadoria média do russo em 1999 era de 750 rublos mensais (aproximadamente 50 reais), enquanto hoje esse valor fica em torno de 6 mil rublos (400 reais). No entanto, o custo de vida no país aumentou proporcionalmente e Moscou se situa entre as cinco cidades mais caras do mundo.

“A aposentadoria da minha avó é muito melhor agora. Temos que agradecer a Putin”, afirma Petr Ilyanov, que com 19 anos “lembra vagamente as dificuldades dos anos 90”.

Diplomacia

A política externa é outro ponto que pesa a favor de Putin. Apesar dos anos da Guerra Fria terem ficado na história, a rivalidade com um inimigo externo (mesmo que muitas vezes inventado) também faz parte do imaginário russo. A ameaça pode ser simplesmente uma república separatista que não se identifica com a Rússia, como é o caso da região do norte do Cáucaso, ou o velho oponente norte-americano.

Mais da metade (52%) dos russos entre 15 e 29 anos apontam os terroristas internacionais como principais inimigos do país e 38% ainda veem os Estados Unidos como a maior ameaça. “Putin começou o desenvolvimento de uma nova ordem mundial. A Rússia quer que todos os países do mundo vivam bem e em harmonia. A mentalidade ocidental é exatamente o contrário disso”, argumenta Alexander Shestakov, de 33 anos.

Todos os anos o país interrompe o fornecimento de gás à Europa durante alguns dias, por algum problema de pagamento ou por acusar os vizinhos de roubar seus recursos. E quase sempre os cortes são feitos durante o rigoroso inverno europeu, como uma maneira de deixar ainda mais evidente a dependência (energética, neste caso) da Europa.

Cada vez que a Rússia usa seus gasodutos ou o poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, Putin ganha mais seguidores. A URSS/Rússia usou o  veto 124 vezes desde 1946, mais do que qualquer outro país. A recente postura da Rússia contra as sanções e intervenções na Síria, por exemplo, conta com o apoio maciço dos cidadãos.

“Putin defende o país contra a russofobia de Condolezza Rice, John McCain, Hillary Clinton, Mikheil Saakashvili. E o nosso padrão de vida cresceu sem interrupção desde o fim dos anos 90. Já podemos fazer um monumento a Putin”, defende Vladimir Nazarov, de 29 anos.

Wikicommons

Particularidades do povo russo, como a religião ortodoxa, impulsionam o apoio a Vladimir Putin

Religião

O popular presidente conseguiu ainda que a Igreja Ortodoxa se transformasse em um aliado. A Rússia parece querer se afastar dos valores soviéticos, mas também se diferenciar da cultura ocidental e, por isso, a religião com sabor russo cai como uma luva. De acordo com os números da SAS, 73% dos jovens se declaram ortodoxos, apesar de apenas 7% frequentarem a igreja pelo menos uma vez por mês.

O patriarca Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa russa, já declarou em inúmeras ocasiões o apoio ao presidente, chegando a chamá-lo de “um milagre de deus para a Rússia”.

“Putin é um líder de verdade. Ele pensa mais nas pessoas do que nele mesmo. Putin não governa somente pelas leis do homem, mas também pelas leis de ‘Deus’ e isso é o mais importante. Nós estamos protegidos por Deus e por Putin”, afirma Alfia Khamidulina, de 24 anos.


Para Alfia Khamidulina, o presidente governa até mesmo pelas leis de Deus

Para casar

A ideia de Putin como salvador da pátria, unificador dos russos e exemplo a ser seguido não para por aí. Em um país onde mais de 500 mil pessoas morrem anualmente por complicações relacionadas ao alcoolismo, Putin é frequentemente colocado como um modelo para os jovens. O presidente não bebe como seu antecessor, Iéltsin, famoso pelos frequentes problemas com álcool, e vem endurecendo as leis de venda de vodka.

Putin também aparece em programas de televisão praticando esportes, geralmente sem camisa, ou fazendo alguma outra atividade física. O presidente conta com as três televisões públicas (as únicas que cobrem todo o território nacional) para divulgar suas façanhas e aventuras. O resultado: admiração entre os rapazes e suspiros entre as meninas (20% das russas dizem que gostariam de se casar com Putin).

Em 2002, um grupo pop virou hit no país com uma musica chamada “Alguém como Putin”. Entre outros elogios, as meninas cantavam nos seus versos que queriam um homem como Putin, que não fosse um alcoólatra. Os papeis de gênero também ainda são muito definidos na Rússia e Putin representa a segurança que a maioria das meninas espera de um homem.

“Quando falamos de Putin, temos orgulho de dizer Rússia e Mãe-Pátria. É a mesma coisa quando escutamos o hino e vemos todas estas pessoas com as cabeças levantadas, emocionadas”, conta Dmitry Andreev, de 28 anos. “Com Putin, conseguiremos não somente ajeitar a nossa casa, mas também proteger o mundo.”

Boris Nemtsov, um dos principais líderes da oposição russa, disse recentemente a jornalistas que Putin está utilizando todos os mecanismos que tem em suas mãos para evitar que a oposição ganhe forças. “Ele perdeu popularidade e está apegado ao poder de maneira obsessiva. Por isso temos tantas manifestações de apoio ao presidente na televisão”.

O presidente russo completou 60 anos recentemente e as homenagens não foram poucas. Exposições de arte e mensagens de apoio fizeram parte da agenda do país durante toda uma semana. Mesmo avesso às novas tecnologias, diferentemente do primeiro-ministro Dmitry Medvedev, o décimo líder político com maior número de seguidores no Twitter (Dilma Rousseff é a nona), Putin é popular nas redes sociais e suas frases são tuitadas e retuitadas muitas vezes, quase como um mantra.

No século XIX, o aclamado escritor russo Fyodor Dostoyevsky acreditava que a única intenção do liberalismo era destruir a Rússia. Ferrenho nacionalista, ele ainda inspira as novas gerações, que asseguram repetir suas frases de maneira literal, com apenas um adendo: “Se um russo fala mal da Rússia (e do Putin), não acredite nele – ele não é um russo de verdade”.

Link original: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/25099/popular+entre+a+juventude+russa+putin+mantem+apoio+apesar+da+mao+de+ferro.shtml

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