O Kremlin preferia Obama, mas não tinha medo de Romney

Texto publicado antes do resultado das eleições

O último debate entre os candidatos Mitt Romney e Barack Obama na corrida presidencial norte-americana (22/10) desenhou para eleitores e telespectadores o mapa do mundo na agenda internacional dos Estados Unidos. O destaque continua sendo a região do Oriente Médio, mas um histórico rival geopolítico também entrou na discussão.

Agência Efe

População russa prefere que o democrata Barack Obama seja reeleito nesta terça-feira (06/11)

Como se a Guerra Fria não tivesse acabado, mais uma vez a Rússia foi citada como uma preocupação norte-americana. E, mais uma vez, pelo candidato republicano, Mitt Romney.

Em março deste ano, Romney já havia declarado que a Rússia é o inimigo geopolítico número um dos Estados Unidos. E como se a polêmica já não houvesse sido suficiente, resolveu repetir a mesma frase no último debate.

A estratégia é simples: conquistar os eleitores indecisos que estão descontentes com a suposta falta firmeza de Obama para negociar com os russos na questão do conflito na Síria. A Rússia, juntamente com a China, vetou uma resolução das Nações Unidas que queria impor sanções ao regime de Bashar al-Assad.

Obama é tido por muitos críticos como brando e maleável nas conversas com o Kremlin, enquanto Romney prefere o ataque como tática política. “Não daremos flexibilidade ao senhor Vladimir Putin”, declarou o republicano em referência ao presidente da Rússia.

Quando assumiu o governo, em 2009, Obama propôs um “recomeço” nas relações bilaterais e a ideia foi recebida com um cauteloso otimismo pela Rússia. As conversas foram centralizadas nas questões de armamento e proteção, incluindo o polêmico Tratado sobre os Mísseis Antibalísticos, assinado há 30 anos entre a URSS e os EUA (e do qual os norte-americanos se retiraram em 2009), e o escudo antimísseis que a OTAN planeja construir na Europa.

Avanço lento

Estados Unidos e Rússia, porém, conseguiram assinar poucos acordos importantes, como o que agiliza a emissão de vistos de turismo entre os dois países, mas falharam na diplomacia. Provocações não foram poupadas das duas partes. As eleições legislativas e presidenciais russas do último ano serviram de palco para uma calorosa queda-de-braço e troca de farpas entre os dois países.

Agência Efe

Hillary Clinton pediu que as denúncias da oposição russa fossem investigadas; fato não foi bem recebido em Moscou

Hillary Clinton, secretária de Estado norte-americana, sugeriu mais de uma vez que o Kremlin deveria investigar os casos de corrupção denunciados pela oposição. A resposta de Putin não demorou: “Clinton está instigando a oposição e apoiando uma onda de protestos pelo país”. Imaginação fértil do Kremlin? Talvez não.

Em janeiro deste ano, alguns líderes da oposição foram vistos entrando na Embaixada norte-americana, em Moscou, a menos de dois meses das eleições presidenciais na Rússia. O evento não era oficial e nem havia sido informado à imprensa, mas alguns jornalistas obtiveram a informação do encontro secreto e o assunto foi recebido com muito alvoroço pela mídia local. O Kremlin acusa a oposição de receber fundos de organizações estrangeiras, interessadas na desestabilização do país.

Agora foi a vez de Moscou dar o troco. Na última semana, o procurador-geral do Texas, que pertence ao Partido Republicano, proibiu o escritório de direitos humanos da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) de monitorar o processo eleitoral no Estado e ameaçou prender os 44 representantes do órgão. “Os EUA se consideram livres de cumprir estas ‘formalidades desnecessárias’ da OSCE. Temos visto a externalização da política de dois pesos e duas medidas (por parte dos norte-americanos)”, declarou um comunicado da organização.

O MID (sigla russa para o Ministério de Assuntos Exteriores da Federação Russa) criticou na semana passada o sistema eleitoral dos EUA, classificando-o de “descentralizado, fragmentado e obsoleto”. E continuou: “Os Estados Unidos dão lições para o mundo sobre democracia e direitos humanos, mas,  quando são apontadas falhas no seu sistema de votação, só querem cumprir as próprias leis”.

Agência Efe

Putin (direita) elogiou o bom relacionamento entre Obama e o primeito-ministro russo  Dmitry Medvedev

Em recente entrevista para o canal Russia Today, Vladimir Putin declarou que “nos últimos quatro anos, Obama e [o primeiro-ministro russo Dmitry] Medvedev fizeram um grande progresso para o fortalecimento das relações entre a Rússia e os EUA”, citando os tratados de não-proliferação de armas de destruição em massa, o combate ao terrorismo e a entrada da Rússia na OMC (Organização Mundial de Comércio). “Obama é uma pessoa honesta que realmente quer mudar [a situação entre os dois países] para melhor.”

Na mesma entrevista, Putin criticou as declarações de Romney a respeito da Rússia. “Entendemos que, em certa medida, essa posição é motivada pela corrida eleitoral e pela retórica política”. No entanto, segundo Putin, um político que aspira liderar uma nação, “especialmente uma superpotência como os EUA”, não pode proclamar um país como seu inimigo.

Para o Kremlin, a vitória de Obama daria continuidade à previsível  política externa norte-americana (criticada internamente nos EUA). O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, declarou no início de outubro que “um recomeço com os Estados Unidos não poderia durar para sempre”, insinuando que a ideia de “recomeço” deve ser atualizada ou descartada.

A vitória de Romney traria mais embates nas questões de armamento e de intervenções e sanções no Oriente Médio, mas Putin já declarou estar preparado para um possível presidente republicano.

Opinião pública russa

A postura anti-ocidental (e no último século, anti-EUA) da Rússia é uma atitude histórica e faz parte da sua identidade e da espinha-dorsal da estratégia geopolítica do país. Entre a população, a rivalidade  com o Tio Sam permanece forte. Segundo o centro Gallup, 26% dos russos acreditam que os EUA são o seu principal inimigo. No entanto, apenas 2% dos norte-americanos pensam o mesmo da Rússia.

Quando o assunto são as eleições presidenciais desta terça-feira, uma esmagadora percentagem de russos acredita que a reeleição de Obama seria melhor para os interesses locais. Em uma pesquisa de âmbito nacional, 41% dos entrevistados disseram que é melhor que o presidente Obama continue na Casa Branca, enquanto apenas 8% expressaram preferência pelo republicano Mitt Romney.

A pesquisa de opinião foi realizada pelo Centro Levada e é uma compilação das respostas de 1.601 adultos em 130 vilas e cidades entre os dias 19 e 22 de outubro.

“Eu espero que Obama ganhe porque ele interfere menos nos assuntos internos da Rússia. Os republicanos não aceitariam o ponto de vista russo e prejudicariam os nossos interesses”, explica o jovem Ilya, de 22 anos, estudante de História.

No entanto, quase 50% dos russos pensam que o vencedor das eleições americanas não é importante para o país. E talvez estejam certos.

“Moscou provavelmente prefira Obama, mas também não vê a vitória de Romney como um desastre. A grande questão é saber que tipo de relação a Rússia quer ter com os Estados Unidos depois das eleições”, explica Dmitri Trenin, diretor do Centro Carnegie de Moscou.

Link original: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/25271/menos+ofensivo+em+relacao+aos+russos+obama+tem+a+preferencia+de+putin.shtml

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