Putin defende lei que proíbe norte-americanos de adotar crianças russas

O presidente russo, Vladimir Putin, reforçou nesta quinta-feira (27/12) que “não há nenhuma razão para não assinar a lei que proíbe que americanos adotem crianças russas”. Apesar das pressões de alguns setores do Kremlin, como do ministro de Relações Exteriores, o líder sinalizou diversas vezes nos últimos dias que pretende autorizar o projeto.

Agência Efe (20/12)

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, sinalizou diversas vezes que vai assinar a lei que proíbe a adoção de crianças russas por norte-americanos

A proposta legislativa foi aprovada na última sexta-feira (21/12) pela câmara baixa da Assembleia Federal da Rússia com 420 votos e apenas 7 contrários e nesta quarta-feira (26/12) pela câmara alta do Parlamento por unanimidade. O projeto só depende agora da assinatura de Putin para que seja promulgado.

A lei é uma resposta da Rússia à recente lei norte-americana conhecida como Ato Magnitsky, que impõe restrições à emissão de vistos aos cidadãos russos suspeitos de estarem envolvidos em qualquer caso de violação dos direitos humanos. Sergei Magnitsky foi um advogado russo que denunciou casos de corrupção e fraude de altos funcionários do país e morreu, em 2009, dentro da prisão. Seu caso ainda não foi explicado pelo Kremlin.

O embaixador dos Estados Unidos na Rússia, Michael McFaul, escreveu na sua conta de Twitter que está “entristecido” com a votação no parlamento e disse ainda que quer “que as crianças sejam tiradas do debate político”.

A Unicef, agência das Nações Unidas de defesa às crianças, pediu que o governo russo reconsidere a decisão tendo em conta “a situação urgente de muitas crianças que estão em instituições do país”. O diretor executivo do organismo, Anthony Lake, disse ainda que “o interesse dessas crianças deve determinar as ações a serem tomadas”.

Até mesmo a Igreja Ortodoxa Russa, tradicional aliada do Kremlin, pediu que sejam abertas algumas exceções na nova lei, como para crianças doentes que precisam de tratamento nos EUA.
Resposta aos EUA

Apesar dos apelos, o Kremlin parece estar decidido a aprovar o projeto de lei.

Fyodor Lukyanov, diretor de uma agência consultiva de política externa da Rússia, declarou que o Ato Magnitsky foi entendido pelo Kremlin como a prova de que os EUA não se preocupam com a soberania de nenhum outro país, somente com a sua.

“A decisão (da nova lei de adoção) foi tomada para que houvesse a maior repercussão possível”, explicou ele em entrevista a jornalistas em Moscou, o.
E a Rússia conseguiu. “Ninguém sabe o que vai acontecer. Estamos todos esperando a decisão de Putin”, contou aoCláudia (nome fictício), brasileira de Fortaleza que está no meio do processo de adoção de um bebê russo com o seu marido norte-americano.

Os dois estão casados há sete anos e foram à Rússia no início de dezembro para visitar o orfanato onde mora o futuro filho, na pequena cidade de Konakovo, a 155 km de Moscou.


(O quarto do futuro filho de Cláudia já está pronto, mas ela e seu marido temem não conseguir adotar a criança russa por conta da nova lei)

Processo de adoção

O processo não é simples. Na primeira visita, o casal conhece a criança, confirma se a aceita e muda seu nome.  A segunda viagem se dá para que sejam formalizadas as questões legais e na terceira e última visita, o casal adota a criança.

“Antes de vir à Rússia pela primeira vez, passamos por um treinamento, somos checados pelo FBI (agência de segurança dos EUA), temos que apresentar cartas de recomendação, fazer exames médicos, de sangue, raio X. E temos que provar condições financeiras. Adotar é um processo burocrático bem complicado”, explica Cláudia. Uma assistente social acompanha todo o processo, que dura no mínimo um ano.

“Já vimos a criança, temos o quartinho do bebê pronto e a segunda visita está agendada para janeiro. O que vai acontecer agora? Não sabemos ainda. Estou desconsolada”, conta a brasileira.

Assim como Cláudia, centenas de famílias estão aguardando a decisão do presidente Putin para saber o futuro das adoções já iniciadas e daquelas em potenciais. Quase mil russos foram adotados em 2011 por cidadãos norte-americanos, representando o terceiro país de procedência de crianças adotivas, depois da China e da Etiópia.

Mais de 120 mil crianças estão inscritas no cadastro nacional de adoção, mas menos de 20 mil famílias russas estão cadastradas como potencias pais adotivos. Algumas fontes do governo informaram que as 46 crianças que estão sendo adotadas neste momento por pais norte-americanos poderiam voltar ao cadastro nacional.

Putin tem o apoio dos russos

Uma pesquisa realizada esta semana pela Fundação de Opinião Pública de Moscou apontou que 56% dos russos apoiam a proibição da adoção por famílias norte-americanas.

“Nossas crianças estão sendo levados para uma cultura diferente e muitas vezes não são cuidadas como deveriam. Essa é a nossa preocupação. Além disso, alguém fala das crianças em Cuba afetadas pelo embargo americano? Não é um jogo político também?”, pergunta-se a psicóloga Olga Tymurshina.

“Eles sempre vendem para o mundo a ideia de que estão defendendo os direitos humanos e protegendo os mais fracos, mas, na verdade, muitas crianças russas são maltratadas nos Estados Unidos. Temos que parar isso”, explica o vendedor Daniil Molyzin.

O tema foi o assunto mais debatido na Rússia esta semana nos veículos de comunicação e uma petição online pedindo que o Kremlin desconsidere o projeto de lei já conta com mais de 120 mil assinaturas. Muitos atores e cantores também entraram na discussão. Durante uma cerimônia de premiação governamental, o ator Konstantin Khabensky foi visto com um broche que dizia “Crianças estão além da política”.

A decisão de Putin pode vir nos próximos dias, mas a futura mãe adotiva brasileira não perde as esperanças. “Peço que Putin tenha compaixão destes órfãos. Não é justo castigar crianças por questões políticas”.

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