Resultado de eleições parlamentares reforça intenção da Ucrânia de se aproximar da União Europeia

Com 99,87% dos votos apurados das eleições parlamentares do último domingo (26), os ucranianos confirmaram nas urnas o desejo de aproximação com a União Europeia e de distanciamento da Rússia. O presidente Petro Poroshenko antecipou as eleições, que seriam realizadas somente em 2017, com o objetivo de “limpar o Parlamento da influência do ex-presidente Victor Yanukovich”, deposto em fevereiro deste ano.

Para Vadim Karasyov, diretor do Instituto de Estratégias Globais de Kiev, a antecipação das eleições “favoreceu enormemente os partidos pró-Ocidente”, já que o pleito acontece em meio a um crescente sentimento anti-Rússia na Ucrânia. “Não estou dizendo que seja bom ou ruim. É apenas uma constatação. As vontades e necessidades dos ucranianos mudaram muito rapidamente. Não houve muito tempo para reflexão, mas as pessoas esperam que a mudança seja positiva”.

Os três partidos que obtiveram mais votos defendem o ingresso do país na União Europeia. O partido Frente Popular, encabeçado pelo atual primeiro-ministro Arseni Yatseniuk, chegou na dianteira, com 22,15% dos votos, seguido de perto pelo partido Bloco do Poroshenko, liderado pelo atual presidente Petro Poroshenko, com 21,82%. Em terceiro lugar, veio o Partido Samopomich (Autosuficiência, em tradução livre), com 10,97% dos votos, que tem como líder Andriy Sadovyi, prefeito de Lviv, no oeste do país, um dos bastiões pró-Europa da Ucrânia.

Os três partidos juntos chegam à marca de 54,94% dos votos “São partidos pró-Ocidente, anti-Rússia, nacionalistas e que defendem valores tradicionais e conservadores”, explicou Karasyov. “Um lado bastante positivo deste resultado é que os três partidos se comprometem com a resolução pacífica do conflito no leste da Ucrânia”

Segunda a lei eleitoral ucraniana, apenas os partidos que atingem um mínimo de 5% de votos podem ser representados no Parlamento. Desta forma, dos 29 partidos que estavam na disputa, somente seis irão eleger parlamentares.

O Bloco de Oposição, único partido pró-Rússia que conseguiu atingir a marca mínima para eleger parlamentares, terminou em 4° lugar, com 9,41% dos votos.

O Parlamento contará ainda com o Partido Radical de Oleg Lyashko, com 7,44% dos votos, e o Partido União de Toda a Ucrânia, também conhecido como Partido da Pátria, com 5,68%, de Yulia Timoshenko, ex-primeira-ministra da Ucrânia. Ambos os partidos são pró-Ocidente e defendem que o fim do conflito no leste do país deve ser à base da força.

Em seu primeiro discurso como líder vitorioso das eleições parlamentares, o primeiro-ministro Yatseniuk propôs uma aliança entre os cinco partidos pró-Ocidente que conseguiram assentos no Parlamento. A coalizão teria 68,06% dos votos e se chamaria “Ucrânia Europeia”. Segundo o primeiro-ministro, o nome é “em homenagem às pessoas que lutaram na Maidan (principal praça de Kiev)”. E concluiu: “As pessoas esperam que a gente cumpra o acordo entre a Ucrânia e a União Europeia e que a Ucrânia se torno um país europeu”. Yatseniuk pretende formalizar todas as alianças no prazo de 20 dias.

O líder do partido Bloco de Oposição, Yuriy Boiko, que representa a única força pró-Rússia do novo Parlamento, prometeu “colaborar com o governo em assuntos-chave” e garantiu o apoio a qualquer plano que leve à paz no leste do país.

Guinada irreversível ao Ocidente

O cientista político Dmitry Porenko acredita que o povo ucraniano deixou um recado claro nas urnas. “Em 2012, tínhamos um país dividido, com o leste pró-Rússia e o oeste pró-Europa. Agora, temos pouquíssimas regiões que ainda estão sob a influência russa. Na verdade, quase exclusivamente quatro regiões do extremo leste: Kharkiv, Luhansk, Donetsk e Zaporizhia”, analisa Porenko.

Ucrânia nas eleições parlamentares de 2012 e 2014 (em laranja, o apoio a partidos pró-Europa, em azul, pró-Rússia)

Ucrânia nas eleições parlamentares de 2012 e 2014 (em laranja, o apoio a partidos pró-Europa, em azul, pró-Rússia)

Para ele, no entanto, o mais importante é o fato de os ucranianos não terem legitimado nas eleições partidos que não queiram o diálogo. “O partido Svoboda, por exemplo, quase chegou aos 5% exigidos. O discurso deles está muito mais moderado do que antes, mas mesmo assim eles não lograram eleger nenhum representante. Ninguém quer alimentar o ódio. O partido Setor Direita também também não conseguiu eleger parlamentares”. E completa: “É verdade que havia muitas forças extremistas durante os protestos, mas não é a maioria da população. Quem lê as notícias russas pensa que os ucranianos estão apoiando fascistas, mas esses (os fascistas) são uma minoria”.

O Svoboda teve 4,71% dos votos e o Setor Direita, 1,80%. Ambos foram grupos ativos nos protestos na praça Maidan, de Kiev, e são acusados de extremismo e nacionalismo.

O bloco do Poroshenko declarou esta semana que não exclui a possibilidade de chamar o Svoboda para compor a coalizão pró-Europa, já que o partido representa algumas das aspirações dos protestos da Maidan.

A conversa com o Setor Direita não é vista como algo viável. “Eles não apóiam a integração da Ucrânia com a União Europeia nem a aproximação com a Rússia. O partido diz que os dois lados teriam apenas ‘ambições imperialistas’ com a Ucrânia”, explica Porenko. O Setor Direita é apontado ainda como antissemita e de flertar com a ideologia nazista. “Com o Setor Direita, não haverá possibilidade de diálogo. E que bom que os ucranianos entendem isso”.

A vontade de distanciamento da Rússia também foi evidenciada pelo baixo apoio ao Partido Comunista da Ucrânia (KPU, na sigla em ucraniano). O partido terminou em oitavo nas eleições, com apenas 3,87% de votos e, pela primeira vez na história do país, não terá um representante no Parlamento. “Isso é uma recado claro que os ucranianos estão dando à Rússia. É uma guinada irreversível ao Ocidente. O Partido Comunista da Ucrânia foi contra a deposição do (ex-presidente) Yanukovich, contra os protestos na Maidan e apoiou a anexação da Crimeia pela Rússia, além de financiar os separatistas do leste”, conta Porenko. Nas eleições do último domingo, o KPU obteve 11,88% dos votos em Luhansk e 10,05% em Donetsk, as regiões pró-Rússia, quase o triplo da média nacional.

O Parlamento Europeu declarou que a “impressão geral (das eleições) foi positiva”, citou a “clareza do processo” e destacou que “o povo ucraniano e as autoridades (do país) claramente escolheram a paz”. O ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse que reconhecerá as eleições parlamentares. “É muito importante que surjam na Ucrânia autoridades que não se dediquem aos reais problemas do país”, disse o chanceler russo.

Eleições no leste do país

Os líderes da autoproclamada Novarrússia (Donetsk e Luhansk) organizam eleições regionais no próximo domingo (2), onde pretendem escolher seus próprios parlamentares e presidentes, sem a interferência do governo central de Kiev.

O governo ucraniano havia concordado em conferir maior autonomia ao leste do país e definiu a data das eleições regionais para o dia 7 de dezembro. Os separatistas não concordaram e mantêm a data do pleito na região para o dia 2 de novembro, uma semana depois das eleições parlamentares na Ucrânia.

Kiev não reconhecerá o resultado. O secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, disse que a votação viola a constituição ucraniana. A União Europeia também alertou que as eleições no leste do país não são legítimas e que “sabotam o acordo de paz”, assinado em Minsk (Belarus). A Rússia já informou que reconhecerá as eleições organizadas pelos separatistas.

Desde a assinatura do cessar-fogo, em 5 de setembro, pelo menos 300 pessoas foram mortas no leste da Ucrânia.

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5 respostas para Resultado de eleições parlamentares reforça intenção da Ucrânia de se aproximar da União Europeia

  1. Кожевникова Ольга disse:

    good article!

  2. Juliana disse:

    Adorei o artigo.. Muito bem escrito..🙂

  3. Vitoria Ramos disse:

    Nossa adorei seu post. muito legal !

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